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É muito fácil morrer

No início de “É assim que acaba”1, Lily diz que, do alto daquele prédio, era impossível não pensar em suicídio. Assim como muitos que pensam (em segredo) em se jogar de uma ponte, se atirar na frente de um trem e cortar o pescoço, há uma verdade intrínseca que nos faz pensar na morte, mas ainda assim, evitá-la: morrer, é muito fácil.

A maioria das pessoas só pensa verdadeiramente na morte em dois momentos: ou quando está morrendo, ou quando quer morrer. Mas algo que poucas pessoas percebem é que a coisa mais absurdamente fácil da vida é colocar um fim nela.

Recentemente, eu me levantei muito rápido e então tudo se apagou. Eu não morri, é claro, se tivesse acontecido, esta seria uma carta psicografada muito estranha. Mas eu estava de pé, e então, tudo escureceu e acordei instantes depois com uma dor de cabeça forte e uma ideia para um texto.

Um desmaio com certeza não é morrer, mas me pareceu chocante a maneira como foi fácil, em um segundo eu estava de pé e sentia o sol na minha pele, e no outro estava no chão, ainda viva, mas poderia não estar. Um pensamento sombrio me dominou, mas não pude contê-lo: e se eu não tivesse acordado?

É comum tratarmos como estranho, oculto ou sobrenatural, e talvez isso se deva ao fato de que não temos ideia do que acontece depois da morte, mas estar ali e em um segundo não estar mais me mostrou que você não precisa ter 80 anos para morrer, algumas pessoas dão sorte, outras morrem antes de poder beber legalmente, algumas sentem a morte vindo, mas a maioria apenas sai para comprar pão e é atropelada, tem dentista marcado para o dia seguinte e infarta, vai se casar na próxima semana e quebra o pescoço… Não é necessário esforço, tão natural quanto a vida, é a morte, e tão inevitável também.

Durante séculos, as pessoas procuraram por elixires, pedras filosofais, magos, bruxas, pactos etc. Tudo para evitar a morte, mas aqueles que realmente ficam ao lado dos que estão à beira do falecimento percebem que, em sua grande maioria, eles vão em paz, com exceção completa daqueles que não viveram plenamente, e que costumam ficar em completo desespero com a ideia de morrer. Então será por isso que evitamos a morte? Não suportamos a ideia de que vivemos mal? De que apenas existimos? Queremos mais tempo porque não somos capazes de aproveitar esse que nos é dado?

Muitas pessoas acreditam precisar de mais dinheiro, amor, uma casa melhor, um corpo mais bonito, um diploma… E então finalmente poderão deixar de apenas existir e começar a viver, mas há lógica nisso? Algum sábio um dia falou que a vida é o que acontece enquanto fazemos planos, ele está certo? Estamos tão constantemente desejando e sonhando que não conseguimos viver o momento presente? Comemos assistindo, assistimos mexendo no celular, mexemos no celular pensando no que vamos fazer amanhã e vivemos o amanhã pensando no que faremos no dia seguinte, nunca estamos onde devemos estar, nossos corações estão sempre distantes, em qualquer lugar, menos onde realmente estamos. E esse, meus amigos, é um péssimo jeito de viver.

Uma vez me deparei com a pergunta que todos já ouvimos: o que faria se esse fosse o seu último dia na Terra? Mas, diferente das respostas comuns: ‘Vou viajar’, ‘Vou assaltar um banco’ ou ‘Vou pular de paraquedas’, eu me deparei com isso:

“Eu faria tudo exatamente igual, para evitar o pensamento de que minha vida poderia ter sido melhor.”

Fazemos isso? Sabemos que vamos morrer, e talvez você não gaste muito tempo pensando nisso, mas vai acontecer, hoje, amanhã, daqui um ou 50 anos, mas um dia, para os maiores santos e pecadores, fiéis e adúlteros, honrosos e sem caráter, todos morreremos um dia. E talvez uma vida mal vivida seja uma forma de não lamentarmos tanto sua perda ao partirmos, mas esse é um jeito de merda de se viver.

Pensemos com números, uma pessoa comum trabalha 8 horas por dia, dorme 8 (nos dias bons), gasta 2 horas com transporte (se tiver sorte), cozinha, come, toma banho, vai ao banheiro… e gasta, digamos, 2 horas com tudo isso, no mínimo, ignorando os dias difíceis em que precisamos de um banho de 1h30. Então, supondo que você não tenha descoberto como parar o tempo, das 24 horas que temos, você vive apenas 4 horas dela, e se ainda se adequar ao termo de pessoa comum, especialistas dizem que essa espécie passa de 3 a 9 horas em frente às telas2.

Então, o que estamos fazendo? Gastamos mais tempo vendo vídeos criados por IA do que vivendo de verdade, que tipo de espécie racional nós somos?

O mundo não é um conto de fadas, existe guerra, existe crime, dor e caos por todo lado, mas também existe amor, alegria, e se reparar bem, você vai ver, é impossível não encontrar beleza se você realmente estiver procurando.

E eu sei que dizer para ser como a Poliana é como viver em uma bolha e dizer que ser feliz só depende de você, é como a meritocracia da felicidade e isso não é justo e nem real. Mas essa é a sua vida! E ela não vai durar para sempre, e talvez você tenha a sorte de poder ficar tão enrugado quanto uma uva passa e refletir sobre sua existência, mas talvez você só levante muito rápido, caia, bata a cabeça e não tenha ninguém para te trazer de volta à consciência. A vida é curta, breve, quase um suspiro. Vivemos menos que uma sacola plástica, não conseguimos ver nem a Terra dando 100 voltas completas ao redor do sol. Então, acredito que talvez, só talvez, devemos facilitar as coisas, dizer o que queremos dizer, sem meias verdades, sem jogos, sem artimanhas, devemos fazer as coisas que sonhamos, eu sei, o medo te mantém viva, mas também te mantém paralisada, ele é o que impede você de pular de um prédio, mas também é aquele que não deixa você mudar de cidade, ou de vida.

Não é “e se”, é “quando”. E quando você morrer, e quando eu morrer, eu espero que possamos pensar que vivemos verdadeiramente e plenamente como deve ser. Quero poder pensar que fomos jovens e selvagens, estúpidos e ardilosos, mas principalmente, que vivemos. Respiramos o ar puro, fomos à praia, fizemos uma trilha, temos uma cicatriz, ficamos com medo, com frio, com fome, com raiva, com tédio (nossa, que saudade de sentir tédio), que gritamos alto, que sussurramos segredos, que beijamos na chuva e fizemos bonecos de neve.

E quando você morrer e eu morrer, eu espero que não desejemos nem por um segundo um tempinho a mais, espero que tenhamos sugado o máximo da vida e que, quando a morte vier nos buscar, a abracemos como uma velha amiga e não como aquela que interrompe nossas reuniões de trabalho. Espero que possamos respirar fundo e ir em paz, porque fizemos tudo que viemos fazer, cumprimos o verdadeiro objetivo da vida: nós, profunda e inteiramente, vivemos.

  1. Livro por Colleen Hoover
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